El cortejo Histórico, una vuelta a la raíces de Ponte de Lima

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEl pasado domingo tuvo lugar en Ponte de Lima el Cortejo Histórico de Feiras Novas, una gran representación que involucró a unos 300 figurantes con sus trajes de época realizados para este evento, muchos de los siete grupos de teatro locales. Todo discurrió como se lo había creado el Padre Manuel Días al que se le rendía homenaje. Por su interés, reproducimos en Grupo ES. el vídeo del Cortejo; una entrevista con Adelino Tito de Morais, historiador y amigo personal del Padre Días, el guión del Cortejo que fue elaborado por Miguel Franco, así como una amplia galería fotográfica del Cortejo.

 

 

1ª PARTE: CONTEXTO POLÍTICO, SOCIAL, CULTURAL E RELIGIOSO DA ÉPOCA

Imperador das Hespanhas, D. Afonso VI

Afonso VI de Leão e Castela intitulava-se a si mesmo de “imperador de toda a Hispânia” porque reunira sob a sua autoridade os tronos dos três reinos de Leão Castela e Galiza, reconstituindo a unidade do reino do seu poderoso pai D. Fernando I (Fernando Magno) e porque conseguira alcançar uma supremacia sobre vários reinos islâmicos independentes do sul (as taifas) que obrigou a pagar-lhes pesados tributos em ouro, tornando-se num dos mais ricos soberanos da Cristandade de então.

Após a derrota na Batalha de Zalaca contra os Almorávidas, que vieram em socorro dos reinos taifas, em 1086, Afonso VI solicitou ajuda militar a cavaleiros franceses, entre os quais se destacaram D. Raimundo e D. Henrique.

Como recompensa pelos serviços prestados, D. Afonso VI concedeu a D. Raimundo a sua filha legítima D. Urraca em casamento e doou-lhe o Condado da Galiza, que compreendia a Galiza e que se estendia para sul até ao rio Minho. Por sua vez, D. Henrique casou com D. Teresa, filha ilegítima do rei, e recebeu, em 1096, o Condado Portucalense, território delimitado pelos rios Minho (a norte), Douro (a oriente) e Mondego (a sul).

Questão da primazia entre Braga e Santiago de Compostela

A luta entre as dioceses de Braga e Compostela vai cavar um fosso entre portugueses e galegos. Os reis ibéricos tentavam tirar partido dos conflitos religiosos entre diferentes sedes em seu próprio proveito. Nesta lógica quer D. Henrique quer D. Teresa nunca deixaram de beneficiar a Sé de Braga, independentemente da relação que tivessem com o arcebispo titular. A procura da autonomia portuguesa passava assim pelo fortalecimento da sua sede episcopal principal.

Esta rivalidade vai ser acentuada pelas desmedidas ambições de Diego Gelmírez, arcebispo de Compostela, que segue a estratégia de procurar aumentar o seu poder à custa da apropriação dos direitos metropolíticos de Braga, como antiga capital da província romana da Galécia. Os arcebispos contemporâneos de D. Teresa vão combater denodamente essas pretensões, nem sempre com sucesso, mas sempre com o apoio de D. Henrique e D. Teresa.

Por bula de 17 de fevereiro de 1120 o papa Calisto II transferiu para Compostela os direitos metropolíticos de Mérida, a antiga capital da província romana da Lusitânia, ainda em poder dos muçulmanos. Este privilégio assegurava-lhe a jurisdição sobre as dioceses portuguesas e leonesas a sul do Douro, nomeadamente Coimbra e Salamanca.

Corte Condal no tempo de Dona Teresa (1125)

A figura de D. Teresa suscitou as mais variadas e contraditórias especulações, sem que seja possível formar uma opinião segura acerca do seu temperamento e dos motivos que nortearam as suas decisões. Não podemos contudo, deixar de ver nela uma personalidade ambiciosa, fortemente convencida do seu direito a herdar um dos estados governados por seu pai, ou seja, pelo menos a Galiza.

D. Teresa recebe uma carta do papa Pascoal II, expedida a 18 de junho de 1116, e dirigida à “rainha Teresa”, um reconhecimento importante, que a partir daquele momento ela tomaria muito em consideração. D. Teresa tinha a consciência da superioridade do seu nascimento, que se considerava “rainha” e como tal se intitulou sempre desde 1117.

A aproximação entre D. Teresa e os Trava foi um facto e aumentando a partir de 1116. Em janeiro de 1121 Fernão Peres de Trava já se encontrava na corte de D. Teresa.

A partir de 1120, D. Afonso Henriques deixa de estar na dependência do seu aio e encontramos muitas vezes a sua subscrição nos documentos de D. Teresa. A partir de então passou a viver na corte, e a ocupar nela uma posição de destaque, pois algumas vezes é mencionado como outorgante de documentos juntamente com sua mãe ou confirma-os em posição superior à do conde Fernão Peres de Trava. Até 1127 não se pode apontar nenhum indício seguro de qualquer conflito entre ele a “rainha”.

A criação dos infantes

D. Afonso Henriques foi muito provavelmente entregue aos cuidados de uma família da mais alta nobreza, como nesta época acontecia aos filhos dos reis das monarquias peninsulares.

As proles, no tempo dos condes portucalenses, eram dados, para aleitamento e criação, às famílias da fidalguia de Entre Douro e Minho, com o intuito de lhes testemunhar uma superior confiança e proteção feudais.

Após o nascimento as crianças eram enfaixadas como forma de proporcionar conforto e segurança à criança e ajudar os recém-nascidos a abandonar a posição fetal com o fim de evitar o temido risco de poderem vir a rastejar ou a movimentar-se como animais. Também o crânio e o rosto recebiam cuidados especiais: o primeiro aconselhava o seu envolvimento numa forte lã cardada (também para proteção de doença dos ouvidos); para a face a utilização de um pano macio a colocar sobre os olhos, para os proteger da luz e das impurezas que geravam infeções.

Por volta dos 7 anos os meninos abandonavam o vestido comprido usado na infância e passavam a trajar calças curtas e gibão, sendo-lhes proibido brincar com bonecas.

Na Idade Média o brinquedo mais representado na iconografia era a piorra (semelhante ao pião, cujo objetivo era fazer a base afunilada girar – difere apenas no modo de funcionamento), jogo seguida pelo cavalo-de-pau, o pião, bola os moinhos de vento. Há registos de brinquedos preciosos, quase sempre feitos em ouro e prata, e oferecidos a crianças da realeza (ex: assobio de ouro, guarnecido de correntes e anéis e uma fita de seda azul). Para as meninas havia as bonecas feitas de sobras de trapo tal como há registos de miniaturas de louça doméstica. A prática da equitação e o manejo da montada desempenhava um papel preponderante no quotidiano dos rapazes.

Banquete medieval

Em datas festivas ou quando o senhor tinha convidados nobres, era tempo de banquete no castelo. No Portugal medieval existiam duas refeições: o jantar e a ceia. A principal seria o jantar que era servida entre as 10 ou 11 horas da manhã. A ceia era tomada entre as 6 e as 7 horas da tarde.

À mesa do rei, da nobreza e do alto clero seriam servidos 3 pratos ao jantar, para além das sopas, acompanhamentos e sobremesas.

As práticas das refeições nos grupos dominantes eram elaboradas e protocoladas. A ausência de garfos levava a que fosse necessário lavar as mãos antes e após cada refeição. Os servidores traziam à mesa “gomis” bem como grandes bacias sobre as quais se colocavam as mãos. Para limpar as mãos eram usadas pequenas toalhas. Desde a Idade Média que se usam à mesa toalhas e guardanapos. Para além de cobrir a mesa, a toalha servia para proceder à limpeza dos objetos no final da refeição. Cada prato bem como o vinho era precedido de um porteiro seguido por criados empunhando tochas. Os alimentos eram trazidos em terrinas ou bacias. As ementas parecem-nos estranhas: naquele tempo misturava-se o doce com o salgado. A garça assada e a cabeça de porco podiam aparecer na mesa ao mesmo tempo que uma tarte de natas, ovos, tâmaras e ameixas, extremamente doces. As pessoas mais ricas gostavam do tempero com especiarias.

Nos castelos mais luxuosos, as refeições podiam ser totalmente acompanhadas de música.

D. Afonso Henriques armado cavaleiro em Zamora (1125)

D. Afonso Henriques com a idade de 16 anos realizou a cerimónia de investidura como cavaleiro na Catedral de Zamora no ano de 1125 ou 1126: “estando na Sé de Zamora, tomou de cima do altar as armas militares e vestiu-se e cingiu-se a si próprio diante do altar, como é costume fazerem os reis. Vestiu-se com a armadura como o Gigante, pois era grande de corpo, e cingindo-se a si próprio com as armas para as batalhas…” (Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses).

Zamora pertencia ao senhorio de D. Teresa desde que lhe fora concedida por D. Urraca em 1111.
Se aceitarmos a veracidade do lugar, teremos de admitir que a cerimónia se teria realizado com o acordo de D. Teresa e com o consentimento de Fernão Peres de Trava. Dir-se-ia que se tratava de assegurar os direitos de D. Afonso à sucessão.

Seria esta cerimónia uma réplica à cerimónia efetuada um ano antes, em Santiago de Compostela, com a investidura de Afonso Raimundes como cavaleiro, promovida pelo arcebispo Diego Gelmírez, para garantir os seus direitos ao trono de Leão e Castela. Significava que D. Teresa continuava a reclamar uma parte da herança de seu pai, ou seja, o governo independente do reino da Galiza, na qual era apoiada pelos Travas neste propósito.

 2ª PARTE: FUNDAÇÃO DA VILA E FEIRA DE PONTE DE LIMA

Atribuição do Foral a Ponte de Lima (4 março 1125)

A 4 de março de 1125, a rainha D. Teresa faz “Vila o supramencionado lugar de Ponte”, com a correspondente outorga de feudo e foro.1 Neste documento Fernão (Fernando) Peres de Trava volta a aparecer ao lado de D. Teresa como testemunha e dando fé de um acto levado a cabo por aquela. A anterior confirmação de um documento por parte de Fernão Peres de Trava ao lado da “rainha” D. Teresa datava de 3 de novembro de 1122.

No pergaminho D. Teresa tornava explícito não só o seu desejo de emenda espiritual como também a vontade de continuar a governar por um dos seus caminhos preferidos, a defesa do território. No caso específico de Ponte de Lima, tal significava colocar uma barreira aos possíveis ataques que podiam vir do norte, em volta de um recinto fortificado na margem sul do rio.

Do ponto de vista político, a presença de Fernando no documento de 4 de março implicava a sua reintegração no corpo de governação do reino. Dado que na acta estava a confirmação do arcebispo de Braga, haveria que pensar que o prelado não teria colocado nenhuma objeção a esse respeito, talvez porque o conde teria acabado de expiar os seus pecados na sua primeira peregrinação à Terra Santa, da qual não há prova documental.

Fundação da Feira de Ponte de Lima (4 de março 1125)

O crescimento económico e demográfico dos séculos XII e XIII, no território que viria a constituir Portugal, permitiu a criação de excedentes, que eram objeto de escoamento nos mercados e feiras.
A 4 de março de 1125, a rainha D. Teresa ao fazer “Vila o supramencionado lugar de Ponte”, com a correspondente outorga de feudo e foro estabelece a realização de uma feira (documento no qual é mencionada pela primeira vez uma feira em território português).

Além da preocupação de defesa, que constituiu a fundação de Ponte de Lima, D. Teresa não descuidou outro aspeto fundamental da sua governação, como era o desenvolvimento económico das suas povoações, às quais se concediam benefícios e isenções para favorecer a permanência dos moradores e acrescentar a riqueza.

As feiras portuguesas constituíram-se num espaço de encontro de produtores, consumidores e distribuidores, realizando-se em datas e locais fixados. A sua importância económica é inquestionável, testemunhando-o a proteção dispensada às mesmas pelos sucessivos monarcas, que concediam privilégios, na vinda e na ida, aos mercadores que a elas concorressem.

3ª PARTE: PONTE DE LIMA NO CONTEXTO DO CONDADO PORTUCALENSE

Os Senhores de Refóios no tempo de D. Teresa

D. Afonso Ansemondes era um intrépido cavaleiro das hostes do Conde D. Henrique e seu inseparável amigo e companheiro, fazendo parte da sua Corte. Após a morte de D. Henrique, D. Afonso Ansemondes regressou à sua quinta e morgado de Refoios do Lima.

Foi a torre de Refoios, com as suas dependências, o solar de D. Afonso Ansemondes tendo sido um dos mais leais cavaleiros da corte do conde D. Henrique e uma das melhores lanças que fizeram Portugal…”
Cerca do ano 1120, Afonso Ansemondes, companheiro de armas do Conde D. Henrique, e seu filho Mendo Afonso fundaram o mosteiro numa propriedade que tinham naquela freguesia.

Em 1124, a “rainha” D. Teresa e o seu filho D. Afonso Henriques deram o título de Conde de Refoios do Lima a D. Mendo Afonso, filho de D. Afonso Ansemondes.

O continuador de Afonso Ansemondes foi o seu filho Mendo.

Mendo Afonso contava-se entre os homens que em 1128 estavam ao lado de D. Afonso Henriques, na luta pelos ideais que iriam conduzir à total independência de Portugal.

O concelho de Ponte de Lima em 1125

Nos concelhos medievais portugueses o documento mais importante era o Foral que definia quais eram os direitos e deveres dos habitantes num quadro geral de grande autonomia.

Os concelhos eram compostos por vizinhos, homens livres, maiores de idade, que habitam a área concelhia há um certo tempo e nela trabalhavam ou eram proprietários.

A sociedade dos concelhos era composta por homens-bons (cavaleiros vilãos) e por peões. Os cavaleiros vilãos eram proprietários, lavradores e/ou mercadores que possuíam riqueza para combater a cavalo, constituíam uma pequena elite que ocupava os cargos administrativos; os peões eram os camponeses, artesãos e pequenos comerciantes.

A assembleia de homens-bons, designado de “concilium”, reunia periodicamente e elegia entre si os oficiais concelhios. Os mais importantes eram os Juízes, eleitos anualmente para administrar a justiça.

Símbolos da autonomia: selo municipal, o pelourinho e bandeiras e certos emblemas.

Magistrados/funcionários: Juízes (supremos dirigentes do concelho); Meirinhos: encarregados da execução fiscal e judicial; Almotacés: vigilância dos mercados, preços, medidas, da sanidade e obras públicas; mordomos: administram os bens concelhios; sesmeiros: responsáveis pela distribuição e vigilância das terras; procurador: tesoureiro; chanceler: guarda o selo e a bandeira do concelho.

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